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Da Faculdade à Operação de Furnas: a trajetória de Antônio Carlos Pantoja Franco

Pantoja (como é conhecido por várias gerações que cruzaram por ele na história de Furnas) nasceu em São Luís-MA, criado por uma mãe muito rigorosa quanto aos estudos: “Nota 9 era o mínimo aceitável”, lembra. Por conta disso, aos 11 anos ganhou uma bolsa do governo do Estado para continuar os estudos no Colégio Pedro II, na então capital da República, como aluno interno. Mas, essa mãe zelosa não deu sua “missão” por concluída. Enquanto ele terminava o Científico, conseguiu uma bolsa para que estudasse no melhor pré-vestibular de engenharia do Rio, o Instituto Universitário. Pantoja foi aprovado para a Escola Nacional de Engenharia (hoje UFRJ). No último ano de Engenharia Elétrica, em 1961, um dos professores da sua turma, o engº Julival de Moraes, chefe do Departamento de Engenharia de Furnas, convidou alguns alunos para participarem de uma seleção ‘in loco’ a fim de compor o quadro inicial de engenheiros da Operação da empresa. Assim começou sua história em Furnas.

Ir para Furnas foi uma grande mudança na vida de Pantoja. Na época, além da faculdade, ele cumpria o Serviço Militar no Centro de Instrução de Oficiais da Reserva da Marinha e, desde 1958, era funcionário do Banco do Brasil. Deixou a Marinha e o Banco para mudar-se para o canteiro de obras, onde ainda estavam sendo montados os primeiros geradores da usina. Sua noiva, Maria Ciavatta, ficou no interior de São Paulo.

“Naquele momento inicial da formação da equipe de Operação em Furnas, destacou-se o engº Victor M. Cataldo, contratado por Furnas para montar um ambicioso programa de capacitação de engenheiros e técnicos, para operar e manter o maior sistema de geração/transmissão da América Latina”, conta Pantoja. “Cataldo não cansava de nos lembrar deste enorme desafio”, lembra Pantoja. “O Brasil precisa de energia, dizia ele, e temos prazo para gerar e entregar essa energia”.

Sob a competente orientação de Cataldo, Pantoja e seus colegas começaram o processo de seleção e capacitação da mão de obra local – jovens da região que tivessem pelo menos o antigo curso Ginasial. Conversaram com diretores das escolas de cidades próximas, elaboraram e aplicaram provas nos limites dos currículos apresentados, “e, claro, uma prova de redação, para ver quem tinha capacidade de ordenar e colocar por escrito suas ideias”. A última fase consistiu em uma entrevista de seleção, de onde saiu a turma do 1º Curso de Treinamento Básico (CTB). Os engenheiros foram para o Rio, pesquisar e preparar o material didático do Curso a ser ministrado na Usina.

Em janeiro de 1962, Pantoja e seus colegas voltaram para o canteiro de obras, para dar início ao 1º CTB, recebidos pelo engº Agostinho Pereira Ferreira, recém-contratado por Furnas e com larga experiência na operação e manutenção de sistemas elétricos nos Estados Unidos. Cataldo, no Rio, e Agostinho, na usina, foram grandes mestres de jovens engenheiros que participaram na criação e desenvolvimento da Operação de Furnas.

Em agosto, concluída a parte teórica do 1º CTB, Pantoja e outros engenheiros foram estagiar na estatal de energia elétrica de Porto Rico, para conhecer equipamentos de teste semelhantes aos que seriam utilizados na usina e no sistema de transmissão de Furnas. De volta ao Brasil e já casado, Pantoja integrou o grupo de engenheiros e alunos do CTB que participou ativamente na instalação das primeiras unidades geradoras. “Foi um período excepcional”, lembra ele. “Nossas equipes trabalhavam diretamente na montagem e comissionamento, enquanto que no Escritório Central se estabeleciam os procedimentos de operação e manutenção.” Pantoja permaneceu na Usina até meados de 1966, onde exerceu a coordenação da operação do sistema de geração/transmissão de Furnas.

À medida que as unidades de geração e o sistema de transmissão começavam a produzir e entregar maiores blocos de energia às concessionárias estaduais, ficava clara a necessidade de um Departamento de Operação, no Rio. Em 1966, Pantoja veio para o Escritório Central para assumir esta tarefa e recebeu do Dr. Luiz Carlos Barreto, então Diretor de Operação, a missão de desenvolver “uma engenharia de operação para o dia-a-dia”.

Em meio ao trabalho, muito estudo. “Furnas cresceu e me levou junto”, afirma com orgulho. “Nos apresentou muitos desafios, mas forneceu todas as ferramentas para que os enfrentássemos.”

Visando preparar seus quadros para enfrentar as crescentes exigências do mercado de energia elétrica, e aproveitando os financiamentos oferecidos por agências internacionais ao Governo Federal, Furnas incentivou seus engenheiros a fazerem cursos de pós-graduação no exterior. Pantoja foi estudar nos EUA e, em 1968, assumiu a chefia do Departamento de Operação. Nesse cargo, interagiu intensamente com as concessionárias para resolver as pendências contratuais existentes nos fornecimentos de energia entregues por Furnas. Isto otimizou o despacho diário de geração nas usinas, reduziu as perdas no sistema de transmissão e ofereceu um serviço mais confiável ao consumidor final. O Brasil necessitava de elevados padrões de qualidade para garantir o melhor aproveitamento dos investimentos que fazia em novas usinas: eficiência energética.

Em 1975, Pantoja foi nomeado Superintendente de Operação, num período em que essa operação ia ficando mais complexa, com o sistema de transmissão em extra-alta tensão de Furnas interligando as Regiões Sudeste e Sul. Na mesma época, passou a representar a Empresa em dezenas de foros nacionais e internacionais relacionados a sistemas elétricos interligados.

Em agosto de 1987 – já Assistente da Diretoria de Operação – o presidente Camilo Pena o convidou para fazer um curso de especialização na prestigiosa Fundação Bariloche. E já avisou: “Você vai voltar de lá um engenheiro diferente”. Foi um período intenso de estudos, quatro meses longe da família, entre engenheiros de vários países da América Latina, estudando Economia e Planejamento Energético. Foi a primeira vez que ele tomou contato com a discussão sobre Meio Ambiente, no contexto da geração de energia. “Voltei de lá um engenheiro diferente”, confirma ele.

Em abril de 1988, Pantoja foi designado para integrar a AD Rio – Agência de Desenvolvimento Econômico e Social do Estado do Rio de Janeiro, onde atuou na Área de Energia. Em fevereiro de 1990, com a ordem do governo Collor de retorno de todos os empregados das estatais às suas empresas de origem, sua contribuição à Agência foi interrompida. Com tempo de serviço cumprido, e sem perspectivas numa empresa cada vez mais curvada aos interesses políticos, Pantoja aposentou-se de Furnas no final de 1990, para… estudar mais.

Compreendendo a importância do tema Meio Ambiente, fez um curso de especialização em Engenharia do Meio Ambiente na UFRJ, colaborando na produção de artigos que foram levados à discussão em vários foros da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento realizada em junho de 1992, no Rio de Janeiro. Pouco depois, fez uma pós-graduação lato sensu em Engenharia de Segurança no Trabalho, no CEFET Celso Sucow da Fonseca. Com esta formação suplementar, trabalhou por mais cerca de duas décadas em consultoria a diversas empresas, além de prestar serviços diretamente a siderúrgicas como Vega do Sul (hoje ArcelorMittal), CST, COSIPA e Usiminas, a empresas elétricas como a Light e Eletronuclear, e ainda à Aracruz Celulose e à Embratel.

Também atuou em entidades profissionais: foi conselheiro por dois mandatos no CREA-RJ, assessor do SENGE-RJ, membro da Diretoria, do Conselho e vice-Presidente da Sociedade Brasileira de Engenharia de Segurança (SOBES), e diretor do Instituto Ilumina.

E aqui, por questão de justiça, precisamos voltar à história familiar. Sua esposa, Maria Ciavatta, já graduada em Letras Clássicas, quando casaram em 1962, concluiu uma licenciatura em Filosofia quando voltaram para o Rio, em 1962. Mestre e Doutora em Educação, fez pós-doutorados na cidade do México, Bolonha e Roma, sendo docente na UFF e pesquisadora do CNPq. Dois filhos voltaram-se para a arte: Estevão é cineasta, documentarista e produtor, e Lucas é professor de música (criador de um método inédito de ensino musical, hoje aplicado em vários países). A filha Mariana, antropóloga e Doutora em Ciências Sociais, é professora e pesquisadora da Universidade Federal do Acre, onde atua no curso de licenciatura intercultural voltado à formação de professores indígenas.

Furnas foi, de fato, enorme na vida de Pantoja. Mas a vida é muito mais.


No dia 9 de junho de 2026, nos despedimos deste grande colega, amigo e excelente profissional. Nossa saudade só não será maior que a dos seus familiares, que tiveram a alegria de conviver com ele por mais tempo e mais intensamente.


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